Reforma tributária deverá ficar para 2009
Sem
acordo com oposição, governo quer saída
honrosa
Folha
de S. Paulo - 19/11/2008
GUSTAVO
PATU
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois
de negociações que se arrastaram até
a noite de ontem sem acordo com a oposição
e os governadores, o governo Lula prepara uma saída
honrosa para a proposta de reforma tributária apresentada
em março como prioridade da agenda legislativa
deste ano.
A saída em estudo terá a aparência
inicial de uma vitória: aprovar, em votação
a ser iniciada hoje, nova versão do texto, de autoria
do deputado Sandro Mabel (PR-GO), na comissão especial
da Câmara encarregada de examinar o projeto.
Com isso, a comissão, presidida pelo ex-ministro
Antonio Palocci Filho (PT-SP), poderá anunciar
o cumprimento de sua tarefa, e o governo poderá
dizer que a reforma avançou neste ano, mantendo-se
na agenda legislativa de 2009.
Trata-se, porém, de uma desistência: os 24
deputados designados para uma primeira análise
do mérito da reforma não conseguiram chegar
a um texto que reunisse apoios suficientes para uma votação
no plenário da Câmara, quando serão
necessários os votos de 308 dos 513 deputados,
como exige o rito das mudanças constitucionais.
Avalia-se que será ainda mais difícil conseguir
os três quintos dos votos no Senado, onde a oposição
e os governadores são mais influentes.
Os impasses - que se concentram nas alterações
propostas no ICMS, a principal fonte de receita dos Estados-
já inviabilizaram a aprovação da
reforma em julho pela comissão, como previa o cronograma
original do governo. Para não fechar o ano sem
votação, a alternativa mais cômoda
pode ser adiar os embates e aprovar o texto na comissão,
onde basta a maioria simples dos presentes.
"Não há reforma tributária que
saia da comissão pronta para ser votada no plenário",
afirmou Miro Teixeira (PDT-RJ), ao propor que as discussões
da comissão fossem encerradas ontem. "Não
há possibilidade de consenso em matéria
tributária", disse Palocci. "Agora eles
estão querendo se livrar do defunto", ironizou
Paulo Bornhausen (DEM-SC).
A reforma muda a forma de arrecadação do
ICMS, que hoje privilegia os Estados onde as mercadorias
são produzidas. Segundo o texto, ao longo de um
período de transição de 12 anos,
esses Estados poderão cobrar apenas uma alíquota
de 2% sobre os bens vendidos a outros Estados - hoje a
alíquota chega a 12%.
Ao lado de São Paulo e Minas, 13 Estados e o Distrito
Federal apresentaram na semana passada documento que pedia
o adiamento da votação da reforma. Sem sucesso,
Mabel tentou acordo com secretários de Fazenda
para viabilizar a votação hoje: elevar para
3% a alíquota do ICMS para os Estados de origem,
que pedem 4%.
Em uma reunião com secretários de Fazenda
que só terminou às 21h20, a proposta não
obteve adesão integral nem dos Estados consumidores,
que acharam a alíquota excessiva, nem dos produtores,
para os quais ela é insuficiente.